Alunos da FACOM traçam perfil de Emiliano
O professor de comunicação, Leandro Colling, da Faculdade de Comunicação da UFBa, passou como tarefa aos seus alunos a construção de um perfil. Os alunos escolheram o professor, escritor, jornalista e ex-deputado Emiliano José. Veja a íntegra do perfil de um dos alunos, o Eduardo Ross, que pesquisou muito e, de modo criativo, incorporou o personagem na primeira pessoa. Um belo texto que revela a vida de militância política de Emiliano.
Aluno: Eduardo Ross
Matéria: Comunicação Jornalística
Universidade Federal da Bahia
Somos Emiliano
Espero que entendam. Não sou eu quem escreve este texto. Quer dizer, na verdade, sim, sou eu. Em busca do maior realismo possível, fiz um pacto. Como aconteceu e através de quais artifícios, sou incapaz de responder. Fundi-me com meu objeto de estudo e agora ele fala através de mim. Nossas mentes podem se confundir em alguns momentos, mas garanto que todas as vivências e sentimentos aqui narrados são do perfilado. Prometo que ao final deste escrito terão entendimento pleno do que falo. Rendi-me a uma comunhão mental para entender melhor o que se passa (e o que se passou). Em uma entrevista com o outro eu dentro da minha cabeça (ou seria dele?), consegui o seguinte depoimento:
Não sou um mártir. Apenas acredito em meus ideais e por eles lutei. Sim, sofri. E sofri mais de uma vez por isso. Mas foi o que serviu para estimular ainda mais minhas convicções. Eu poderia começar tentando conseguir compaixão, simpatia e narrar a minha dura infância de pobre garoto alienado do interior de São Paulo. O mundo para mim era aquilo, aquela roça e nada mais. A vida se limitava a plantar, colher e ajudar meus pais. Isso na década de 50, eu com meus 11, 12 anos. Nossa existência era esquecida. Quem iria se lembrar de miseráveis fazendeiros do interior?
Ainda dá para completar essa típica história de menino trabalhador, sofrido, mas que ainda assim pensava em seu futuro e fazia o impossível para conseguir estudar. Como aos 13 anos, quando morávamos em Santana do Parnaíba, e eu ainda cursava o 2º ano do primário. Ah, e para aumentar com louvor todo o drama, eu andava descalço. O dia todo, inclusive na escola. De qualquer forma eu já estava acostumado a sentir a terra entre meus dedos, o chão frio na minha sola (algo que me fez desenvolver uma bela crosta no pé). Mas afinal, quem disse que sapatos fazem um homem?
É, até agora minha infância daria um ótimo bloco em algum programa de televisão. Mostrariam minhas roupas esfarrapadas, meus pais, enquanto o apresentador, com sua aparente indignação, bradaria contra a desigualdade social no Brasil. No final, nos dariam uma cesta básica em troca da audiência. Ainda assim, eles teriam mais do que falar. Nossa mudança para Guarulhos realmente me marcou. Foi então que realmente me senti sofrido e tomei conta disso. Lá, em meus 14 anos, fui obrigado a trabalhar por meu pai. Exato, nada mais de estudos. O sonho do garotinho indo embora. No início não pude perceber como aquilo me daria ao menos um senso de responsabilidade. Mas enfim, ainda era um menino.
Pois é, falei tanto e no final me pareceu uma espécie de psicologia reversa. 'Não quero comprar compaixão', escuto alguém me arremedando em tom jocoso. Me dei o trabalho de fazer todo esse discurso irônico com uma historinha digna de folhetim para mostrar que não me vanglorio desses fatos. São apenas fatos e nada mais. Mas temo ser mal interpretado. 'Não sou um mártir', repito. Conto aquilo que fez me tornar quem sou. Realmente não peço pena de ninguém. Até porque trilhei o caminho que quis, ao invés de ficar me lamuriando, quando consegui voltar a estudar. Só aos 17 anos, idade na qual nasci. Começou a subversão e então Emiliano José surgiu ao mundo.
Culpa desses professores revoltosos. Tsc, tsc... ainda mais quando são os de história e português, sempre os mais atiçados. Sempre aqueles que usam barba e gostam de vermelho. Estranhei quando chamaram os alunos de 'camaradas'. Fazer o quê? Conseguiram abrir minha mente e então pude olhar para trás e ter plena consciência de querer mudar, ao menos, situações de garotos como eu. Sabe aquela sensação de 'Isso não está certo'? Perceber a possibilidade de mudar foi então minha nova matriz.
E claro que havia outros aspirantes a comunas. Naquela sala de aula eu olhava ao redor e enxergava outros olhos brilhantes. Um deles eram os de Pedro Oliveira, colega e dono de nossa base de operações. Dono não, filho da dona. O local de nosso retiro espiritual, nossa casa da cultura (aliás, isso tudo era na minha cabeça de interiorano deslumbrado). A casa de Ada, era essa a sua alcunha, era também a casa de Pedro, a minha e de todos os colegas que procuravam expandir seus horizontes. Ali as idéias surgiam. Eu havia encontrado meu lar intelectual.

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