Opinião


14/06/2007


Alunos da FACOM traçam perfil de Emiliano

O professor de comunicação, Leandro Colling, da Faculdade de Comunicação da UFBa, passou como tarefa aos seus alunos a construção de um perfil. Os alunos escolheram o professor, escritor, jornalista e ex-deputado Emiliano José. Veja a íntegra do perfil de um dos alunos, o Eduardo Ross, que pesquisou muito e, de modo criativo, incorporou o personagem na primeira pessoa. Um belo texto que revela a vida de militância política de Emiliano.

Aluno: Eduardo Ross 
Matéria: Comunicação Jornalística
Universidade Federal da Bahia

Somos Emiliano

Espero que entendam. Não sou eu quem escreve este texto. Quer dizer, na verdade, sim, sou eu. Em busca do maior realismo possível, fiz um pacto. Como aconteceu e através de quais artifícios, sou incapaz de responder. Fundi-me com meu objeto de estudo e agora ele fala através de mim. Nossas mentes podem se confundir em alguns momentos, mas garanto que todas as vivências e sentimentos aqui narrados são do perfilado. Prometo que ao final deste escrito terão entendimento pleno do que falo. Rendi-me a uma comunhão mental para entender melhor o que se passa (e o que se passou). Em uma entrevista com o outro eu dentro da minha cabeça (ou seria dele?), consegui o seguinte depoimento:

Não sou um mártir. Apenas acredito em meus ideais e por eles lutei. Sim, sofri. E sofri mais de uma vez por isso. Mas foi o que serviu para estimular ainda mais minhas convicções. Eu poderia começar tentando conseguir compaixão, simpatia e narrar a minha dura infância de pobre garoto alienado do interior de São Paulo. O mundo para mim era aquilo, aquela roça e nada mais. A vida se limitava a plantar, colher e ajudar meus pais. Isso na década de 50, eu com meus 11, 12 anos. Nossa existência era esquecida. Quem iria se lembrar de miseráveis fazendeiros do interior?

Ainda  dá para completar essa típica história de menino trabalhador, sofrido, mas que ainda assim pensava em seu futuro e fazia o impossível para conseguir estudar. Como aos 13 anos, quando morávamos em Santana do Parnaíba, e eu ainda cursava o 2º ano do primário. Ah, e para aumentar com louvor todo o drama, eu andava descalço. O dia todo, inclusive na escola. De qualquer forma eu já estava acostumado a sentir a terra entre meus dedos, o chão frio na minha sola (algo que me fez desenvolver uma bela crosta no pé). Mas afinal, quem disse que sapatos fazem um homem?

É, até agora minha infância daria um ótimo bloco em algum programa de televisão. Mostrariam minhas roupas esfarrapadas, meus pais, enquanto o apresentador, com sua aparente indignação, bradaria contra a desigualdade social no Brasil. No final, nos dariam uma cesta básica em troca da audiência. Ainda assim, eles teriam mais do que falar. Nossa mudança para Guarulhos realmente me marcou. Foi então que realmente me senti sofrido e tomei conta disso. Lá, em meus 14 anos, fui obrigado a trabalhar por meu pai. Exato, nada mais de estudos. O sonho do garotinho indo embora. No início não pude perceber como aquilo me daria ao menos um senso de responsabilidade. Mas enfim, ainda era um menino.

Pois é, falei tanto e no final me pareceu uma espécie de psicologia reversa. 'Não quero comprar compaixão', escuto alguém me arremedando em tom jocoso. Me dei o trabalho de fazer todo esse discurso irônico com uma historinha digna de folhetim para mostrar que não me vanglorio desses fatos. São apenas fatos e nada mais. Mas temo ser mal interpretado. 'Não sou um mártir', repito. Conto aquilo que fez me tornar quem sou. Realmente não peço pena de ninguém. Até porque trilhei o caminho que quis, ao invés de ficar me lamuriando, quando consegui voltar a estudar. Só aos 17 anos, idade na qual nasci. Começou a subversão e então Emiliano José surgiu ao mundo.

Culpa desses professores revoltosos. Tsc, tsc... ainda mais quando são os de história e português, sempre os mais atiçados. Sempre aqueles que usam barba e gostam de vermelho. Estranhei quando chamaram os alunos de 'camaradas'. Fazer o quê? Conseguiram abrir minha mente e então pude olhar para trás e ter plena consciência de querer mudar, ao menos, situações de garotos como eu. Sabe aquela sensação de 'Isso não está certo'? Perceber a possibilidade de mudar foi então minha nova matriz.

E claro que havia outros aspirantes a comunas. Naquela sala de aula eu olhava ao redor e enxergava outros olhos brilhantes. Um deles eram os de Pedro Oliveira, colega e dono de nossa base de operações. Dono não, filho da dona. O local de nosso retiro espiritual, nossa casa da cultura (aliás, isso tudo era na minha cabeça de interiorano deslumbrado). A casa de Ada, era essa a sua alcunha, era também a casa de Pedro, a minha e de todos os colegas que procuravam expandir seus horizontes. Ali as idéias surgiam. Eu havia encontrado meu lar intelectual.

Escrito por José Ivandro às 07h58
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 Sim, viva os anos 60! Sexo, drogas e rock n'roll! Psicodelia, sacanagem e revolução! Era nesse clima que vivíamos na casa de Ada. Não, não organizávamos orgias lá. Quero dizer que estávamos acompanhados dos ideais de liberdade próprios do tempo e aquele lugar representou um passo decisivo para o meu batismo de sangue do dia 1º de maio de 1968.

Me lembro orgulhoso daquele dia. O refluxo de sensações passando pelo meu corpo fazia parecer que eu tinha uma outra pessoa dentro de mim se esgueirando para sair. Foi a minha primeira passeata estudantil. Havia sido, enfim, desvirginado. Entrei, naquele momento, de cabeça na realidade. Ainda não tinha sido a vez que eu iria tomar umas pauladas na nuca, mas pude ver tudo de perto e sentir.

Era a mais pura experiência sensorial. Escutei a trilha sonora da minha vida: os gritos revolucionários dos estudantes e os urros insanos dos militares enquanto acompanhava tudo com os olhos. A percussão eram as cacetadas no corpo dos estudantes. Senti o cheiro daquela luta, mas não especificamente o suor. E no final o que mais queríamos era experimentar o sabor da vitória.

Mas meu verdadeiro batismo de subversivo, apesar de eu já me enxergar como um, veio logo depois. Meu orgulhoso primeiro fichamento na polícia. Cheguei a me sentir importante até, mas que nada, eu ainda era peixe pequeno. Tudo isso foi só por causa de uma panfletagem estúpida no 7 de setembro. Tsc, tsc... reacionários! Mas aqueles momentos foram bons, pois daí em diante nos deixamos ser aliciados. Viramos finalmente comunas na batalha contra os milicos. Acabamos encontrando o nosso partido. Ou melhor, nosso partido nos encontrou. Fomos convocados para servir a nossa pátria transviada pela Ação Popular, a AP. E mais uma nova fase da minha vida se iniciava. De Jaçanã, onde morava, fui para o Brasil. Assumi de vez o meu alter ego.

'Quem é você?', me perguntavam. 'Sou Pedro Luiz Vian', respondia. Esse era eu desbravando o país. Com uma peixeira na mão cortando a mata densa na minha frente. Lógico que não era tão primitivo, afinal eu era militante e não bandeirante. Mas aquela clandestinidade tresloucada me dava uma impressão próxima a isso. Vagava pelo Brasil sem lenço e com documento falso. Para completar estava a frente do cargo em que a AP me colocou: dirigente da UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas). 

Foi em uma dessas andanças que a porrada realmente passou muito perto. 1969 foi realmente um ano de peregrino para mim e lá estava eu em Santa Catarina. Depois de uma manifestaçãozinha de praxe, coisa simples até, em um colégio local, fui abordado pelo garboso agente da Dops, o Batista. O infeliz queria realmente me dar uma sova. Nessa época eu já era bem graúdo. E não sei se por lerdeza do Batista, mas o fato é que não me algemou. Ficou me segurando belo braço como uma dama de companhia (meio truculenta, é verdade). Pensando nas possibilidades nada agradáveis que me aguardariam na prisão, não hesitei e fugi desembestado. Foi então que escutei um tiro. Um silêncio passou por dentro de mim até eu perceber que não havia sido atingido. Mesmo durante essa fração de segundo, continuei correndo sem ao menos olhar para trás. 

Comecei realmente a temer o pior. Quanto mais eu viajava, mais percebia o quão violenta a repressão havia se tornado. 1969 também foi um ano obscuro. Era um Brasil pós-AI-5. Até então tinha dado pra sobreviver nos lugares por onde passava com a ajuda de simpatizantes do movimento (que eu garanto, não eram poucos). O problema era que meus companheiros estavam começando a cair e meu maior momento de fraqueza ocorreu quando soube que Pedro Oliveira, meu amigo de longa data, também tinha sido pego. Eu me tornei perigoso não apenas para os militares, mas para todas as pessoas conhecidas ao meu redor. Inclusive meu próprio pai foi capturado para se descobrir por onde eu andava. A situação estava preta.

Então a AP me lançou no fim de linha da minha jornada. Eles me mandaram para Salvador, lugar do meu destino final, mas ainda assim, local da minha eterna moradia. Lá fui finalmente preso e depois de solto escolhi este como o meu novo lar. E chegando a este ponto da minha história a memória começa a dificultar as duras lembranças. Mas tem um dia que com certeza nunca vou esquecer: 23 de novembro de 1970. O cenário da minha prisão seria o mais (aparentemente) tranqüilo de todos. Para as reuniões da AP sempre escolhíamos locais como as praias da cidade. Naquele dia a Ribeira havia sido escolhida.

E tudo ia bem. A reunião aconteceu normalmente. Mas só até eu chegar no ônibus que me levaria para casa. Ali mesmo nos degraus da lotação fui puxado bruscamente para trás. Com a experiência de Santa Catarina fresca na minha mente, de novo nem quis saber da porrada que eventualmente receberia. Lutei o máximo para me desvencilhar e minha camisa acabou sofrendo as conseqüências. Por hora parecia que eu conseguiria fugir mais uma vez. Com o coração palpitando eu ria por dentro de mim acreditando no meu sucesso enquanto pulava para fora do ônibus e cruzava pelas ruelas do bairro a toda velocidade. Mal sabia eu que os policiais tinham interceptado toda a área e não havia para onde ir. Depois de um tempo, fui cercado. Meu sangue estampou os cassetetes dos militares naquele dia.

Escrito por José Ivandro às 07h58
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Foi um momento de epifania. Eu sabia exatamente o que fazer. Sabia que deveria buscar dentro de mim todas as forças possíveis para resistir. E eu, mesmo quase desfalecido, ainda pude ironicamente perguntar: 'E por que estou sendo preso?'. A resposta foi o Quartel do Barbalho.

Agora peço a compreensão. Sempre falei desse momento com bastante naturalidade até. Não sou um mártir. Mas em ocasiões, as lembranças doem na pele. Doem na consciência também. Não por arrependimento, isso jamais! Mas pelos gritos ensurdecedores que ainda ecoam na minha cabeça. Ainda mais vendado, eu só podia ouvir. E sentir. Sentir minha cabeça sendo afogada numa bacia de água enquanto levava pancadas de barra de ferro. Impossível ignorar essa tormenta, mas, sinceramente, aquilo era fichinha.

Meu prestígio ali dentro estava subindo. Era a hora de brincar no pau-de-arara. Mais humilhante, impossível. Pendurado em uma vara, amarrado pelas mãos e joelhos como se fosse um frango assado, estava completamente nu enquanto recebia várias pancadas. Eu poderia poupá-los de tentar reproduzir cenas tão desagradáveis, mas é necessário entender a vitória do intelecto sobre a dor física. Acho que jamais serei  capaz de fazer com que realmente entendam como eu e outros fomos capazes de resistir. Mas apenas para que fique registrado: sim, foi possível.

Foi possível, mas isso porque ainda não havia chegado no estágio final. Os choques elétricos foram a materialização da junção de todo tipo de sofrimento físico que eu poderia imaginar. Não, também não delatei ninguém, mas foi insuportável. Preferia morrer. Com fios elétricos ligados aos lugares mais sensíveis do corpo (exatamente onde você está pensando) eu ainda resisti. Talvez seja realmente impossível para qualquer um entender como.

Depois deles desistirem de mim, minha penúria soteropolitana ainda não havia terminado. Em janeiro de 1971 fui transferido, juntamente com alguns companheiros, para a penitenciária Lemos de Brito. Um mal-trato de vez em quando acontecia, mas minha verdadeira amargura vinha da recuperação dos meus dias no Barbalho. Meus dias de cárcere na Galeria F representaram a minha época de maior instabilidade psicológica. Durante a noite ainda sentia a corrente elétrica passando pelo meu corpo. Dormir era insuportável. Visões me assombravam.

E por vezes era um mosquito. Não, uma buzina dentro da minha cabeça. Um inseto se esgueirava dentro de mim. Um zunido intermitente e incomodante ecoava em minha cabeça. Isso sim impossibilitava qualquer tentativa de sono. Descobriria depois ser uma seqüela dos bons e velhos choques do Barbalho.

Mas a mente fraca deu uma guinada. Um evento que me faria lembrar a razão de estar ali e de ter a certeza da minha saída um dia (só ocorrida em 1974). E quando saísse teria possivelmente a mais absoluta certeza de querer continuar ajudando na busca pela igualdade no Brasil. O que aconteceu, não me lembro exatamente quando, foi o pedido de perdão feito a mim por um de meus torturadores, Gildo Ribeiro. Não, não me compadeci por ele. Não foi um sentimento de compaixão surgido ali, de repente, que criou certezas em mim sobre meu futuro. Essas certezas simplesmente afloraram por eu ter tido a oportunidade de ficar cara a cara com um dos meus carrascos e poder negar seu pedido. Foi minha chance de dizer um 'não' a tudo aquilo. 'Não me importa qualquer coisa que queira. Viva sua vida e eu vivo a minha, mas jamais padecerei diante dos executores da ditadura', pude dizer mais ou menos assim. Recentemente soube, ao receber um e-mail de seu filho que ainda carrega a culpa do pai, que Gildo Ribeiro havia morrido. Pois é, ele viveu a vida dele e eu vivo a minha.

A liberdade foi meu mais novo nascimento. Podia ser mais uma vez Emiliano José. O que se segue é a prova da minha dispensa de qualquer tipo de pena. Pois não parei e continuei a lutar pelo que acredito. Seria insólito tentar narrar cada cargo que alcancei depois de então. Importa que eu fiz o possível pra continuar na minha batalha. Sendo deputado estadual, vereador, ou ainda almejar chegar a ser deputado federal, continuo o mesmo. Mudei, claro, em relação aquele garotinho descalço desligado do mundo. Mudei sim, mas continuo o mesmo.

E para quê relatar isso tudo? Simplesmente mostrar uma narrativa de um período único da história nacional? Quem sabe, deixar para as gerações futuras a memória e as idéias imortalizadas naquele tempo? Me eternizar nos anais da história e criar uma comoção nacional com isso? Não, não... não sou um mártir. Talvez apenas goste do barulho da máquina de escrever..


13/06/2007

Fonte www.emilianojose.com.br

Escrito por José Ivandro às 07h56
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